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Seção 1.2 Números Naturais e Contagem

A primeira habilidade que dominamos no uso dos números naturais é a de contar, ou seja, a de determinar o número de elementos de um conjunto.

Definição 1.2.1.

Contar um conjunto \(X\) significa estabelecer uma correspondência biunívoca entre os elementos de \(X\) e os de um subconjunto de \(\mathbb{N}\) da forma
\begin{equation*} I_n=\{x\in \mathbb{N}~|~ x\leq n\} = \{1,2,\ldots, n\}. \end{equation*}
Quando é possível estabelecer tal correspondência biuívoca, dizemos que \(X\) é um conjunto finito e que \(n\) é o número cardinal ou número de elementos de \(X\text{.}\)

Nota 1.2.2.

Uma correspondência biunívoca entre dois conjuntos \(X\) e \(Y\) é uma função bijetiva \(f:X\rightarrow Y\text{,}\) ou seja, uma regra que associa a cada elemento de \(X\) um elemento de \(Y\) de modo que cada elemento de \(Y\) seja imagem de exatamente um elemento de \(X\) (isto equivale a dizer que \(f\) é uma função simultaneamente injetiva e sobrejetiva).
A partir da definição anterior podemos demonstrar as propriedades básicas da contagem:

Nota 1.2.4.

Um conjunto é infinito quando não é finito. Por exemplo, \(\mathbb{N}\) é infinito: dada qualquer função \(f:I_n\rightarrow \mathbb{N}\text{,}\) não importa qual \(n\) se fixou, pomos \(k=f(1)+f(2)+\cdots+f(n)\) e vemos que, para todo \(x\in I_n\text{,}\) tem-se \(f(x)\lt k\text{,}\) logo não existe \(x\in I_n\) tal que \(f(x)=k\text{.}\) Assim, \(f\) não pode ser uma correspondência biunívoca.

Nota 1.2.5.

No final do século XIX, Georg Cantor (1845-1918) mostrou como comparar a cardinalidade de conjuntos infinitos: um conjunto pode ser "mais infinito" do que outro.

Definição 1.2.6.

Dizemos que dois conjuntos \(X\) e \(Y\) têm a mesma cardinalidade quando é possível estabelecer uma correspondência biunívoca entre \(X\) e \(Y\) (isto é, existe uma função bijetiva \(f:X\rightarrow Y\)).

Exemplo 1.2.7.

O conjunto \(\mathbb{N}\) dos números naturais e \(P=\{2n~|~n\in \mathbb{N}\}\) dos números pares têm a mesma cardinalidade. Neste caos, a bijeção já está dada na definição de \(P\text{:}\) a função \(f:\mathbb{N}\rightarrow P\) definida por \(f(n)=2n\) é uma bijeção de \(N\) em \(P\text{.}\)

Nota 1.2.8.

O que pode ser surpreendente no exemplo anterior é a constatação de que, para conjuntos infinitos, é perfeitamente possível que dois conjuntos tenham a mesma cardinalidade, embora um deles seja um subconjunto próprio do outro.
A principal contribuição de Cantor foi exibir casos em que não é possível obter uma bijeção entre dois conjuntos infinitos.

Exemplo 1.2.9.

Considere o conjunto \(C\) de todas as sequências infinitas em que todos os termos são iguais a \(0\) ou \(1\text{.}\) Um exemplo de elemento de \(C\) é a sequência \((0,1,0,1,\ldots)\text{,}\) que alterna termos \(0\) e \(1\text{.}\) A cardinalidade de \(C\) é pelo menos a mesma de \(\mathbb{N}\text{,}\) já que é possível estabelecer uma correspondência biunívoca entre \(\mathbb{N}\) e o subconjunto \(D\) de \(C\) formado pelas sequências que possuem exatamente um termo igual a \(1\) (podemos associar o natural \(n\) à sequência em que o \(1\) aparece na \(n\)-ésima posição). Isso não impede, em princípio, que possa haver uma bijeção entre \(\mathbb{N}\) e \(C\text{.}\) Cantor, no entanto, mostrou que não há tal bijeção, fazendo com que \(C\) seja "mais infinito" que \(\mathbb{N}\text{.}\)
Seu argumento foi o seguinte. Suponhamos que fosse possível construir uma função \(f:\mathbb{N}\rightarrow C\text{,}\) em que cada sequência de \(C\) aparecesse exatamente uma vez como imagem. Assim, seria possível ordenar as sequências de \(C\text{,}\) por exemplo:
\begin{align*} f(1)=\amp~ (1,0,0,0,0,0,\ldots)\\ f(2)=\amp~ (1,0,1,0,0,0,\ldots)\\ f(3)=\amp~ (0,0,0,1,1,1,\ldots)\\ \vdots :\amp~ \vdots \end{align*}
Construa uma sequência \(s\) formada por \(0s\) e \(1s\) do seguinte modo: Se o primeiro termo da sequência \(f(1)\) é \(0\text{,}\) o primeiro termo de \(s\) é \(1\text{;}\) senão, é \(0\text{.}\) Se o \(i\)-ésimo termo da sequência \(f(i)\) é \(0\text{,}\) o \(i\)-ésimo termo de \(s\) é \(1\text{;}\) senão, é \(0\) e assim sucessivamente. A sequência \(s\) assim contruída difere pelo menos na posição \(n\) de cada sequência \(f(n)\text{.}\) Logo, não pertence a imagem de \(f\text{.}\) Mas, nossa suposição era de que todos os elementos de \(C\) aparecessem como imagem!. Temos, assim, uma contradição, que mostra a impossibilidade de construir uma bijeção de \(\mathbb{N}\) em \(C\text{.}\)

Nota 1.2.10.

O conjunto \(C\) do exemplo anterior é um exemplo de conjunto infinito não enumerável, isto é, que não pode ser posto em correspondência biunívoca com o conjunto dos números naturais. Outros exemplos de conjuntos não enumeráveis são os conjuntos dos números reais e dos números irracionais. O conjunto dos números racionais, porém, é enumerável.

Nota 1.2.11.

Uma função de domínio igual a \(\mathbb{N}\) é chamada de uma sequência. É conveniente pensar em uma sequência \(a:\mathbb{N}\rightarrow X\) como uma lista de valores \((a(1), a(2), a(3),\ldots)\text{,}\) que muitas vezes preferimos representar por \((a_1, a_2, a_3, \ldots)\text{.}\)
Conjuntos infinitos e conjuntos enumeráveis podem ser caracterizados em termos das propriedades das sequências de elementos destes conjuntos, como se segue:
  • Um conjunto \(X\) é infinito se, e somente se, é possível construir uma sequência \((a_1, a_2, a_3, \ldots)\) em que os termos são elementos distintos de \(X\) (ou seja, quando há uma função injetiva de \(\mathbb{N}\) em \(X\)).
  • Um conjunto infinito \(X\) é enumerável se, e somente se, é possível construir uma sequência \((a_1, a_2, a_3, \ldots)\) incluindo todos os elementos de \(X\) (ou seja, quando há uma função sobrejetiva de \(\mathbb{N}\) em \(X\)).