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Cálculo M V: notas de aula

Seção 3.2 Superfícies Parametrizadas e Integrais de Superfície

Subseção 3.2.1 Superfícies Parametrizadas

Definição 3.2.1.

Considere uma função \(\alpha: D \subseteq \mathbb{R}^2 \to \mathbb{R}^3\) dada por:
\begin{equation*} \alpha(u,v) = (x(u,v), y(u,v), z(u,v)) \end{equation*}
O conjunto imagem \(\text{Im}(\alpha) = \{\alpha(u,v) : (u,v) \in D\}\) é denominado uma superfície parametrizada.
As equações escalares:
\begin{equation*} \begin{cases} x = x(u,v) \\ y = y(u,v) \\ z = z(u,v) \end{cases} \quad (u,v) \in D \end{equation*}
são chamadas de equações paramétricas da superfície. Podemos também representá-la pela equação vetorial:
\begin{equation*} \vec{\alpha}(u,v) = x(u,v)\vec{i} + y(u,v)\vec{j} + z(u,v)\vec{k} \end{equation*}
Mapeamento de um domínio bidimensional com coordenadas u e v para uma superfície curva tridimensional no espaço xyz.
Figura 3.2.2. Mapeamento do domínio plano \(D\) na superfície \(\text{Im}(\alpha)\)

Exemplo 3.2.3.

Identifique a superfície dada por \(\vec{\alpha}(u,v) = (u+2v)\vec{i} + (2u-v+1)\vec{j} + (u+v+2)\vec{k}\text{,}\) com \((u,v) \in \mathbb{R}^2\text{.}\)
Solução.
As equações paramétricas são:
\begin{align*} x \amp = u + 2v\\ y \amp = 2u - v + 1\\ z \amp = u + v + 2 \end{align*}
Esta parametrização representa um plano que passa pelo ponto \((0,1,2)\) e é paralelo aos vetores direcionais \(\vec{m} = (1,2,1)\) e \(\vec{n} = (2,-1,1)\text{.}\)
Eliminando os parâmetros \(u\) e \(v\text{:}\)
\begin{align*} u = x - 2v \amp \implies y = 2(x - 2v) - v + 1 = 2x - 5v + 1\\ \amp \implies v = \frac{2}{5}x - \frac{1}{5}y + \frac{1}{5} \end{align*}
Substituindo em \(z\text{:}\)
\begin{align*} z \amp = (x - 2v) + v + 2 = x - v + 2\\ \amp = x - \left(\frac{2}{5}x - \frac{1}{5}y + \frac{1}{5}\right) + 2 = \frac{3}{5}x + \frac{1}{5}y + \frac{9}{5} \end{align*}
Obtendo a equação cartesiana: \(3x + y - 5z + 9 = 0\text{.}\)

Exemplo 3.2.4.

Descreva a superfície dada por \(\alpha(u,v) = (2\cos u, 2\sin u, v)\text{,}\) com \(u,v \in \mathbb{R}\text{.}\)
Solução.
Para qualquer altura fixada \(z = v\text{,}\) as coordenadas no plano \(xy\) satisfazem:
\begin{equation*} x^2 + y^2 = (2\cos u)^2 + (2\sin u)^2 = 4(\cos^2 u + \sin^2 u) = 4 \end{equation*}
Logo, em qualquer altura temos uma circunferência de raio 2 paralela ao plano \(xy\text{.}\) Trata-se de um cilindro circular reto de raio 2 ao longo do eixo \(z\text{.}\)

Exemplo 3.2.5.

Encontre uma parametrização para a esfera de raio \(R > 0\) centrada na origem.
Solução.
Utilizando coordenadas esféricas com raio fixo \(R\text{:}\)
\begin{equation*} \alpha(\varphi, \theta) = (R\sin\varphi\cos\theta, R\sin\varphi\sin\theta, R\cos\varphi) \end{equation*}
com \(0 \le \varphi \le \pi\) e \(0 \le \theta \le 2\pi\text{.}\)
Alternativamente, como a equação cartesiana é \(x^2 + y^2 + z^2 = R^2\text{,}\) isolando \(z\) obtemos a semiesfera superior parametrizada diretamente pelas variáveis cartesianas:
\begin{equation*} \alpha(x,y) = \left(x, y, \sqrt{R^2 - x^2 - y^2}\right), \quad \text{com } x^2 + y^2 \le R^2 \end{equation*}

Exemplo 3.2.6.

Encontre uma parametrização para a superfície correspondente ao gráfico do paraboloide \(z = x^2 + y^2\text{.}\)
Solução.
Para o gráfico de qualquer função \(z = g(x,y)\text{,}\) adotamos \(x\) e \(y\) como parâmetros naturais:
\begin{equation*} \vec{\alpha}(x,y) = x\vec{i} + y\vec{j} + (x^2 + y^2)\vec{k}, \quad (x,y) \in \mathbb{R}^2 \end{equation*}

Subseção 3.2.2 Plano Tangente

Seja \(\alpha: D \subset \mathbb{R}^2 \to \mathbb{R}^3\) uma superfície parametrizada suave e considere um ponto \((u_0, v_0) \in D\text{.}\)
  • Fixando \(v = v_0\text{,}\) a função \(u \mapsto \alpha(u, v_0)\) define uma curva coordenada na superfície com vetor tangente \(\frac{\partial \alpha}{\partial u}(u_0, v_0)\text{.}\)
  • Fixando \(u = u_0\text{,}\) a função \(v \mapsto \alpha(u_0, v)\) define outra curva coordenada com vetor tangente \(\frac{\partial \alpha}{\partial v}(u_0, v_0)\text{.}\)
Superfície no espaço mostrando duas curvas coordenadas se cruzando em um ponto, com os vetores tangentes parciais definindo o plano tangente.
Figura 3.2.7. Vetores tangentes coordenados e plano tangente
Supondo que o produto vetorial não seja nulo:
\begin{equation*} \vec{N} = \frac{\partial \alpha}{\partial u}(u_0, v_0) \times \frac{\partial \alpha}{\partial v}(u_0, v_0) \neq \vec{0} \end{equation*}
o vetor \(\vec{N}\) é normal à superfície em \(\alpha(u_0, v_0)\text{.}\) O plano tangente é definido pelas seguintes equações:
Forma Vetorial
\begin{equation*} (x,y,z) = \alpha(u_0, v_0) + s \frac{\partial \alpha}{\partial u}(u_0, v_0) + t \frac{\partial \alpha}{\partial v}(u_0, v_0), \quad s,t \in \mathbb{R} \end{equation*}
Forma Cartesiana
Sendo \(\vec{N} = (a,b,c)\) e \(\alpha(u_0, v_0) = (x_0, y_0, z_0)\text{:}\)
\begin{equation*} a(x - x_0) + b(y - y_0) + c(z - z_0) = 0 \end{equation*}

Exemplo 3.2.8.

Determine o plano tangente à superfície com equações paramétricas \(x = u^2\text{,}\) \(y = v^2\text{,}\) \(z = u + 2v\) no ponto \((1, 1, 3)\text{.}\)
Solução.
Sendo \(\vec{r}(u,v) = (u^2, v^2, u+2v)\text{,}\) derivamos em relação aos parâmetros:
\begin{align*} \vec{r}_u \amp = \frac{\partial \vec{r}}{\partial u} = 2u\vec{i} + \vec{k}\\ \vec{r}_v \amp = \frac{\partial \vec{r}}{\partial v} = 2v\vec{j} + 2\vec{k} \end{align*}
O vetor normal é dado pelo produto vetorial:
\begin{equation*} \vec{r}_u \times \vec{r}_v = \begin{vmatrix} \vec{i} & \vec{j} & \vec{k} \\ 2u & 0 & 1 \\ 0 & 2v & 2 \end{vmatrix} = -2v\vec{i} - 4u\vec{j} + 4uv\vec{k} \end{equation*}
O ponto \((1,1,3)\) corresponde a \(u = 1\) e \(v = 1\text{.}\) O vetor normal no ponto é:
\begin{equation*} \vec{N} = -2\vec{i} - 4\vec{j} + 4\vec{k} \end{equation*}
Portanto, a equação do plano tangente é:
\begin{align*} -2(x - 1) - 4(y - 1) + 4(z - 3) = 0 \amp \implies -2x - 4y + 4z - 6 = 0\\ \amp \implies x + 2y - 2z + 3 = 0 \end{align*}

Exemplo 3.2.9.

Encontre a equação do plano tangente à semiesfera \(z = \sqrt{4 - x^2 - y^2}\) no ponto \((1, 1, \sqrt{2})\text{.}\)
Solução.
Parametrizando por \(\alpha(x,y) = (x, y, \sqrt{4 - x^2 - y^2})\text{:}\)
\begin{align*} \alpha_x(x,y) \amp = \left(1, 0, \frac{-x}{\sqrt{4 - x^2 - y^2}}\right)\\ \alpha_y(x,y) \amp = \left(0, 1, \frac{-y}{\sqrt{4 - x^2 - y^2}}\right) \end{align*}
No ponto \((1,1)\text{:}\)
\begin{equation*} \alpha_x(1,1) = \left(1, 0, -\frac{1}{\sqrt{2}}\right), \quad \alpha_y(1,1) = \left(0, 1, -\frac{1}{\sqrt{2}}\right) \end{equation*}
Calculando o vetor normal:
\begin{equation*} \vec{N} = \alpha_x \times \alpha_y = \begin{vmatrix} \vec{i} & \vec{j} & \vec{k} \\ 1 & 0 & -\frac{1}{\sqrt{2}} \\ 0 & 1 & -\frac{1}{\sqrt{2}} \end{vmatrix} = \frac{\sqrt{2}}{2}\vec{i} + \frac{\sqrt{2}}{2}\vec{j} + \vec{k} \end{equation*}
Assim, a equação cartesiana do plano tangente é:
\begin{equation*} \frac{\sqrt{2}}{2}(x - 1) + \frac{\sqrt{2}}{2}(y - 1) + (z - \sqrt{2}) = 0 \iff x + y + \sqrt{2}z - 4 = 0 \end{equation*}

Subseção 3.2.3 Área de Superfície

Definição 3.2.10.

Seja \(S\) uma superfície parametrizada suave dada por \(\vec{r}(u,v) = x(u,v)\vec{i} + y(u,v)\vec{j} + z(u,v)\vec{k}\text{,}\) com \((u,v) \in D\text{.}\) Se \(S\) é percorrida uma única vez quando \((u,v)\) varia em \(D\text{,}\) a área da superfície é dada por:
\begin{equation*} A(S) = \iint_{D} \|\vec{r}_u \times \vec{r}_v\| \, dA \end{equation*}
onde \(\vec{r}_u = \frac{\partial \vec{r}}{\partial u}\) e \(\vec{r}_v = \frac{\partial \vec{r}}{\partial v}\text{.}\)

Exemplo 3.2.11.

Calcule a área da superfície de uma esfera de raio \(R > 0\text{.}\)
Solução.
Parametrização: \(\alpha(\varphi, \theta) = (R\sin\varphi\cos\theta, R\sin\varphi\sin\theta, R\cos\varphi)\text{,}\) com \(0 \le \varphi \le \pi\) e \(0 \le \theta \le 2\pi\text{.}\)
Derivadas parciais:
\begin{align*} \frac{\partial \alpha}{\partial \varphi} \amp = (R\cos\varphi\cos\theta, R\cos\varphi\sin\theta, -R\sin\varphi)\\ \frac{\partial \alpha}{\partial \theta} \amp = (-R\sin\varphi\sin\theta, R\sin\varphi\cos\theta, 0) \end{align*}
O produto vetorial resulta em:
\begin{equation*} \frac{\partial \alpha}{\partial \varphi} \times \frac{\partial \alpha}{\partial \theta} = R^2\sin^2\varphi\cos\theta\vec{i} + R^2\sin^2\varphi\sin\theta\vec{j} + R^2\sin\varphi\cos\varphi\vec{k} \end{equation*}
Calculando a norma (lembrando que \(\sin\varphi \ge 0\) para \(0 \le \varphi \le \pi\)):
\begin{align*} \left\|\frac{\partial \alpha}{\partial \varphi} \times \frac{\partial \alpha}{\partial \theta}\right\| \amp = \sqrt{R^4\sin^4\varphi(\cos^2\theta + \sin^2\theta) + R^4\sin^2\varphi\cos^2\varphi}\\ \amp = \sqrt{R^4\sin^2\varphi(\sin^2\varphi + \cos^2\varphi)} = R^2\sin\varphi \end{align*}
Integrando sobre o domínio:
\begin{align*} A(S) \amp = \int_{0}^{2\pi} \int_{0}^{\pi} R^2\sin\varphi \, d\varphi \, d\theta = R^2 \left(\int_{0}^{2\pi} d\theta\right) \left(\int_{0}^{\pi} \sin\varphi \, d\varphi\right)\\ \amp = R^2 (2\pi) \left[-\cos\varphi\right]_{0}^{\pi} = 2\pi R^2 (1 - (-1)) = 4\pi R^2 \end{align*}

Exemplo 3.2.12.

Encontre a área da parte do cone \(z = \sqrt{x^2 + y^2}\) que se encontra entre o plano \(y = x\) e o cilindro parabólico \(y = x^2\text{.}\)
Solução.
A projeção da região sobre o plano \(xy\) é dada por \(D = \{(x,y) \in \mathbb{R}^2 : 0 \le x \le 1, x^2 \le y \le x\}\text{.}\)
Parametrizando o cone por \(\alpha(x,y) = (x, y, \sqrt{x^2+y^2})\text{:}\)
\begin{equation*} \frac{\partial \alpha}{\partial x} \times \frac{\partial \alpha}{\partial y} = -\frac{x}{\sqrt{x^2+y^2}}\vec{i} - \frac{y}{\sqrt{x^2+y^2}}\vec{j} + \vec{k} \end{equation*}
Sua norma é constante:
\begin{equation*} \left\|\frac{\partial \alpha}{\partial x} \times \frac{\partial \alpha}{\partial y}\right\| = \sqrt{\frac{x^2+y^2}{x^2+y^2} + 1} = \sqrt{1 + 1} = \sqrt{2} \end{equation*}
A área da superfície é:
\begin{align*} A(S) \amp = \iint_{D} \sqrt{2} \, dA = \int_{0}^{1} \int_{x^2}^{x} \sqrt{2} \, dy \, dx = \sqrt{2} \int_{0}^{1} (x - x^2) \, dx\\ \amp = \sqrt{2} \left.\left(\frac{x^2}{2} - \frac{x^3}{3}\right)\right|_{0}^{1} = \sqrt{2}\left(\frac{1}{2} - \frac{1}{3}\right) = \frac{\sqrt{2}}{6} \end{align*}

Subseção 3.2.4 Integral de Superfície de Campos Escalares

Definição 3.2.13.

Seja \(\alpha: D \subseteq \mathbb{R}^2 \to \mathbb{R}^3\) uma superfície parametrizada suave e injetiva com imagem \(S\text{,}\) e seja \(f(x,y,z)\) uma função contínua definida sobre \(S\text{.}\) A integral de superfície de \(f\) sobre \(S\) é dada por:
\begin{equation*} \iint_{S} f(x,y,z) \, dS = \iint_{D} f(\alpha(u,v)) \left\|\frac{\partial \alpha}{\partial u} \times \frac{\partial \alpha}{\partial v}\right\| dA \end{equation*}

Nota 3.2.14.

Quando \(f(x,y,z) = 1\text{,}\) temos \(\iint_{S} 1 \, dS = A(S)\) (a área de \(S\)).

Exemplo 3.2.15.

Calcule \(\iint_{S} x^2 \, dS\text{,}\) onde \(S\) é a esfera unitária \(x^2 + y^2 + z^2 = 1\text{.}\)
Solução.
Usando a parametrização esférica com \(R=1\text{,}\) temos \(\|\alpha_\varphi \times \alpha_\theta\| = \sin\varphi\) e \(x = \sin\varphi\cos\theta\text{:}\)
\begin{align*} \iint_{S} x^2 \, dS \amp = \int_{0}^{2\pi} \int_{0}^{\pi} (\sin\varphi\cos\theta)^2 \sin\varphi \, d\varphi \, d\theta\\ \amp = \left(\int_{0}^{2\pi} \cos^2\theta \, d\theta\right) \left(\int_{0}^{\pi} \sin^3\varphi \, d\varphi\right) \end{align*}
Calculando cada integral:
\begin{align*} \int_{0}^{2\pi} \cos^2\theta \, d\theta \amp = \int_{0}^{2\pi} \frac{1+\cos(2\theta)}{2} \, d\theta = \pi\\ \int_{0}^{\pi} \sin^3\varphi \, d\varphi \amp = \int_{0}^{\pi} (1 - \cos^2\varphi)\sin\varphi \, d\varphi = \left.\left(-\cos\varphi + \frac{\cos^3\varphi}{3}\right)\right|_{0}^{\pi} = \frac{4}{3} \end{align*}
Portanto:
\begin{equation*} \iint_{S} x^2 \, dS = \pi \cdot \frac{4}{3} = \frac{4\pi}{3} \end{equation*}

Exemplo 3.2.16.

Calcule \(\iint_{S} z \, dS\text{,}\) onde \(S\) é a porção do cone \(z = \sqrt{x^2+y^2}\) situada abaixo do paraboloide \(4z = x^2 + y^2 + 3\text{.}\)
Solução.
Determinamos a interseção entre o cone \(z^2 = x^2+y^2\) e o paraboloide \(4z = (x^2+y^2) + 3\text{:}\)
\begin{equation*} z^2 - 4z + 3 = 0 \implies z = 1 \quad \text{ou} \quad z = 3 \end{equation*}
A projeção de \(S\) sobre o plano \(xy\) é o anel circular delimitado por \(x^2+y^2 = 1\) e \(x^2+y^2 = 9\text{.}\)
Parametrizando por \(\alpha(x,y) = (x, y, \sqrt{x^2+y^2})\text{,}\) temos \(\|\alpha_x \times \alpha_y\| = \sqrt{2}\text{.}\) Em coordenadas polares, a região é descrita por \(1 \le r \le 3\) e \(0 \le \theta \le 2\pi\text{:}\)
\begin{align*} \iint_{S} z \, dS \amp = \iint_{D} \sqrt{x^2+y^2} \sqrt{2} \, dA = \sqrt{2} \int_{0}^{2\pi} \int_{1}^{3} r \cdot r \, dr \, d\theta\\ \amp = \sqrt{2} (2\pi) \left.\frac{r^3}{3}\right|_{1}^{3} = 2\sqrt{2}\pi \left(\frac{27 - 1}{3}\right) = \frac{52\sqrt{2}\pi}{3} \end{align*}
Se \(S\) é uma superfície suave por partes formada pela união \(S = S_1 \cup S_2 \cup \dots \cup S_n\text{,}\) interceptando-se apenas em suas fronteiras, a integral é dada por:
\begin{equation*} \iint_{S} f(x,y,z) \, dS = \sum_{i=1}^{n} \iint_{S_i} f(x,y,z) \, dS \end{equation*}

Exemplo 3.2.17.

Calcule \(\iint_{S} z \, dS\text{,}\) onde \(S\) é a superfície fechada composta pelo cilindro lateral \(S_1: x^2 + y^2 = 1\text{,}\) pelo fundo \(S_2: x^2 + y^2 \le 1\) em \(z = 0\text{,}\) e pelo topo \(S_3\) no plano \(z = 1 + x\text{.}\)
Solução.
Calculamos a integral em cada uma das três superfícies:
  • Superfície lateral \(S_1\text{:}\) com parâmetros \(\theta\) e \(z\text{,}\) \(x = \cos\theta\text{,}\) \(y = \sin\theta\text{,}\) \(z = z\text{,}\) onde \(0 \le \theta \le 2\pi\) e \(0 \le z \le 1 + \cos\theta\text{.}\) O elemento de área é \(\|r_\theta \times r_z\| = 1\text{.}\)
    \begin{align*} \iint_{S_1} z \, dS \amp = \int_{0}^{2\pi} \int_{0}^{1+\cos\theta} z \, dz \, d\theta = \frac{1}{2} \int_{0}^{2\pi} (1 + \cos\theta)^2 \, d\theta\\ \amp = \frac{1}{2} \int_{0}^{2\pi} \left(1 + 2\cos\theta + \frac{1+\cos 2\theta}{2}\right) d\theta = \frac{3\pi}{2} \end{align*}
  • Fundo \(S_2\text{:}\) sobre o plano \(z = 0\text{,}\) temos \(f(x,y,0) = 0\text{,}\) logo:
    \begin{equation*} \iint_{S_2} z \, dS = \iint_{S_2} 0 \, dS = 0 \end{equation*}
  • Topo \(S_3\text{:}\) faz parte do plano \(z = 1+x\) sobre o disco unitário \(D: x^2+y^2 \le 1\text{.}\) O elemento de área é \(\sqrt{1 + z_x^2 + z_y^2} = \sqrt{1 + 1^2 + 0} = \sqrt{2}\text{.}\) Em coordenadas polares:
    \begin{align*} \iint_{S_3} z \, dS \amp = \iint_{D} (1+x)\sqrt{2} \, dA = \sqrt{2} \int_{0}^{2\pi} \int_{0}^{1} (1 + r\cos\theta) r \, dr \, d\theta\\ \amp = \sqrt{2} \int_{0}^{2\pi} \left(\frac{1}{2} + \frac{\cos\theta}{3}\right) d\theta = \sqrt{2}\pi \end{align*}
Somando as três contribuições:
\begin{equation*} \iint_{S} z \, dS = \frac{3\pi}{2} + 0 + \sqrt{2}\pi = \left(\frac{3}{2} + \sqrt{2}\right)\pi \end{equation*}

Subseção 3.2.5 Integral de Superfície de Campos Vetoriais (Fluxo)

Seja \(\alpha: D \subseteq \mathbb{R}^2 \to \mathbb{R}^3\) uma superfície suave. Um campo vetorial unitário normal contínuo é definido por:
\begin{equation*} \vec{n}(\alpha(u,v)) = \frac{\frac{\partial \alpha}{\partial u} \times \frac{\partial \alpha}{\partial v}}{\left\|\frac{\partial \alpha}{\partial u} \times \frac{\partial \alpha}{\partial v}\right\|} \end{equation*}
A escolha de \(\vec{n}\) ou \(-\vec{n}\) determina uma orientação para a superfície \(S\text{.}\)

Nota 3.2.18.

Para uma superfície fechada, adotamos convencionalmente como orientação positiva aquela em que o vetor normal \(\vec{n}\) aponta para o exterior (para fora da região sólida envolvida).

Definição 3.2.19.

Seja \(\vec{F}\) um campo vetorial contínuo sobre uma superfície orientada \(S\) com vetor normal unitário \(\vec{n}\text{.}\) A integral de superfície de \(\vec{F}\) sobre \(S\text{,}\) denominada fluxo de \(\vec{F}\) através de \(S\text{,}\) é dada por:
\begin{equation*} \iint_{S} \vec{F} \cdot d\vec{S} = \iint_{S} (\vec{F} \cdot \vec{n}) \, dS \end{equation*}
Em termos da parametrização \(\alpha(u,v)\text{,}\) como \(dS = \left\|\frac{\partial \alpha}{\partial u} \times \frac{\partial \alpha}{\partial v}\right\| dA\text{,}\) a norma do produto vetorial se cancela, resultando diretamente em:
\begin{equation*} \iint_{S} \vec{F} \cdot d\vec{S} = \iint_{D} \vec{F}(\alpha(u,v)) \cdot \left(\frac{\partial \alpha}{\partial u} \times \frac{\partial \alpha}{\partial v}\right) dA \end{equation*}

Exemplo 3.2.20.

Calcule o fluxo de \(\vec{v}(x,y,z) = 10\vec{i} + (x^2+y^2)\vec{j} - 2xy\vec{k}\) através da superfície parametrizada por \(\sigma(u,v) = (u, v, 1 - u^2 - v^2)\text{,}\) com \(0 \le u \le 1\) e \(0 \le v \le 1\text{.}\)
Solução.
Calculamos o vetor normal fundamental:
\begin{equation*} \frac{\partial \sigma}{\partial u} \times \frac{\partial \sigma}{\partial v} = \begin{vmatrix} \vec{i} & \vec{j} & \vec{k} \\ 1 & 0 & -2u \\ 0 & 1 & -2v \end{vmatrix} = 2u\vec{i} + 2v\vec{j} + \vec{k} \end{equation*}
Avaliando o campo na parametrização e efetuando o produto interno:
\begin{align*} \vec{v}(\sigma(u,v)) \cdot \left(\frac{\partial \sigma}{\partial u} \times \frac{\partial \sigma}{\partial v}\right) \amp = \big(10\vec{i} + (u^2+v^2)\vec{j} - 2uv\vec{k}\big) \cdot (2u\vec{i} + 2v\vec{j} + \vec{k})\\ \amp = 20u + 2v(u^2+v^2) - 2uv\\ \amp = 20u + 2u^2v + 2v^3 - 2uv \end{align*}
Integrando no quadrado \(K = [0,1] \times [0,1]\text{:}\)
\begin{align*} \iint_{\sigma} \vec{v} \cdot d\vec{S} \amp = \int_{0}^{1} \int_{0}^{1} (20u + 2u^2v + 2v^3 - 2uv) \, du \, dv\\ \amp = \int_{0}^{1} \left[ 10u^2 + \frac{2}{3}u^3v + 2uv^3 - u^2v \right]_{0}^{1} dv\\ \amp = \int_{0}^{1} \left(10 - \frac{1}{3}v + 2v^3\right) dv = \left[ 10v - \frac{v^2}{6} + \frac{v^4}{2} \right]_{0}^{1}\\ \amp = 10 - \frac{1}{6} + \frac{1}{2} = \frac{60 - 1 + 3}{6} = \frac{62}{6} = \frac{31}{3} \end{align*}

Exemplo 3.2.21.

Calcule \(\iint_{\sigma} \vec{F} \cdot \vec{n} \, dS\text{,}\) onde \(\sigma\) é a fronteira do cubo unitário \([0,1] \times [0,1] \times [0,1]\text{,}\) \(\vec{F}(x,y,z) = x^2\vec{i} - \vec{j} + \vec{k}\text{,}\) e \(\vec{n}\) é a normal exterior.
Solução.
A integral é calculada pela soma do fluxo nas 6 faces:
  • Face superior (\(z=1\text{,}\) \(\vec{n}_1 = \vec{k}\)): \(\vec{F} \cdot \vec{k} = 1 \implies \iint = 1\text{.}\)
  • Face direita (\(y=1\text{,}\) \(\vec{n}_2 = \vec{j}\)): \(\vec{F} \cdot \vec{j} = -1 \implies \iint = -1\text{.}\)
  • Face inferior (\(z=0\text{,}\) \(\vec{n}_3 = -\vec{k}\)): \(\vec{F} \cdot (-\vec{k}) = -1 \implies \iint = -1\text{.}\)
  • Face esquerda (\(y=0\text{,}\) \(\vec{n}_4 = -\vec{j}\)): \(\vec{F} \cdot (-\vec{j}) = 1 \implies \iint = 1\text{.}\)
  • Face posterior (\(x=0\text{,}\) \(\vec{n}_5 = -\vec{i}\)): \(\vec{F} \cdot (-\vec{i}) = -x^2 = 0 \implies \iint = 0\text{.}\)
  • Face frontal (\(x=1\text{,}\) \(\vec{n}_6 = \vec{i}\)): \(\vec{F} \cdot \vec{i} = x^2 = 1 \implies \iint = 1\text{.}\)
Somando os fluxos parciais:
\begin{equation*} \iint_{\sigma} \vec{F} \cdot \vec{n} \, dS = 1 - 1 - 1 + 1 + 0 + 1 = 1 \end{equation*}

Exemplo 3.2.22.

Considere o sólido \(B = \{(x,y,z) \in \mathbb{R}^3 : x \ge 0, y \ge 0, 0 \le z \le 1 - x - y\}\) com fronteira orientada para fora \(\sigma\text{,}\) e o campo \(\vec{F}(x,y,z) = x\vec{i} + y\vec{j} + z\vec{k}\text{.}\) Verifique que:
\begin{equation*} \iint_{\sigma} \vec{F} \cdot \vec{n} \, dS = \iiint_{B} \text{div}\,\vec{F} \, dV \end{equation*}
Solução.
1. Cálculo pelo fluxo direto na superfície: A fronteira é formada pela face inclinada \(\sigma_1\) e por três faces sobre os planos coordenados.
  • Na face \(\sigma_1\) (\(z = 1-x-y\)), parametrização \(\sigma_1(u,v) = (u,v,1-u-v)\) com normal \(\vec{n} = (1,1,1)\text{:}\)
    \begin{equation*} \iint_{\sigma_1} \vec{F} \cdot d\vec{S} = \iint_{D} (u, v, 1-u-v) \cdot (1,1,1) \, dA = \iint_{D} 1 \, dA = \text{área}(D) = \frac{1}{2} \end{equation*}
  • Nas faces dos planos coordenados (\(z=0\text{,}\) \(x=0\text{,}\) \(y=0\)), temos respectivamente \(\vec{F}\cdot(-\vec{k}) = -z = 0\text{,}\) \(\vec{F}\cdot(-\vec{i}) = -x = 0\) e \(\vec{F}\cdot(-\vec{j}) = -y = 0\text{.}\) Logo, o fluxo nessas faces é nulo.
Assim, o fluxo total é \(\frac{1}{2} + 0 + 0 + 0 = \frac{1}{2}\text{.}\)
2. Cálculo pela integral tripla do divergente:
\begin{equation*} \text{div}\,\vec{F} = \frac{\partial}{\partial x}(x) + \frac{\partial}{\partial y}(y) + \frac{\partial}{\partial z}(z) = 1 + 1 + 1 = 3 \end{equation*}
Integrando sobre o sólido \(B\text{:}\)
\begin{equation*} \iiint_{B} \text{div}\,\vec{F} \, dV = 3 \iiint_{B} 1 \, dV = 3 \cdot \text{Vol}(B) = 3 \cdot \left(\frac{1}{3} \cdot \frac{1}{2} \cdot 1\right) = \frac{1}{2} \end{equation*}
Verificando a igualdade.